Em meio à piora do cenário de crédito na largada de 2026, a diretoria do Banco do Brasil (BBAS3) decidiu antecipar a mensagem mais sensível para o investidor: não haverá espaço para dividendos extraordinários neste ano.
“Está totalmente descartado”, afirmou o vice-presidente de Gestão Financeira e Relações com Investidores, Geovanne Tobias, durante coletiva com jornalistas nesta quinta-feira (14 de maio).
A sinalização veio direto da diretoria durante a conferência de resultados do primeiro trimestre, em um momento em que o banco já lida com pressão crescente sobre a qualidade dos ativos, especialmente no agronegócio.
Além disso, a decisão também ocorre na esteira de uma revisão nas projeções (guidance) do BB para 2026, motivada por uma deterioração no cenário de crédito e um aumento nos riscos previstos.
Mais do que buscar acelerar a remuneração ao acionista nos próximos meses, a prioridade do Banco do Brasil agora é preservar capital e atravessar um ciclo de maior pressão com mais cautela.
O peso do agronegócio nos resultados do Banco do Brasil
Segundo o vice-presidente de agronegócio, Gilson Bittencourt, o fluxo de pagamentos do setor de agronegócio em abril veio pior do que o esperado — um sinal relevante em um momento em que o mercado já monitora de perto a qualidade do crédito rural.
Embora a produção e produtividade brasileiras continuem em níveis recordes, o banco enfrenta problemas pontuais de liquidez em algumas atividades específicas, o que tem afetado a pontualidade dos pagamentos, segundo a administração do BB.
Esse descompasso entre produção forte e caixa mais apertado ajuda a explicar por que a inadimplência segue pressionada, mesmo em um setor que, historicamente, funciona como pilar da carteira do banco.
Além disso, o cenário climático adiciona mais uma camada de incerteza. Os efeitos do El Niño continuam no radar, com impactos distintos entre regiões e dificuldade maior de previsibilidade para os próximos meses.
Diante desse ambiente mais instável, o banco já começou a ajustar suas engrenagens internas.
O vice-presidente de controles internos e gestão de risco, Felipe Prince, destacou que o BB revisou suas estimativas de perda esperada — movimento que se traduziu em reforço de provisões e revisão do custo de crédito projetado para o ano.
Quando o agro transborda para a pessoa física
A deterioração do fluxo de caixa no agronegócio já começa a transbordar para outra ponta da carteira do Banco do Brasil: a pessoa física.
Como muitos produtores concentram seu relacionamento financeiro no Banco do Brasil, o aperto no campo acaba contaminando outras linhas de crédito dos mesmos clientes — elevando o risco também fora do segmento rural.
Para lidar com esse cenário, o BB vem acelerando a implementação de uma nova metodologia de concessão de crédito. O objetivo é elevar o nível de exigência, priorizar garantias mais robustas e tornar a originação mais seletiva.
Por enquanto, cerca de 25% da carteira agro já está enquadrada nesse novo modelo. A expectativa é que, até setembro, mais de 50% dos vencimentos mensais passem a seguir essas diretrizes.
A aposta da administração é que esse ajuste comece a aparecer de forma mais clara nos indicadores de inadimplência ao longo do segundo semestre, ainda que de maneira gradual.
O contra-ataque do Banco do Brasil no crédito
Enquanto recalibra o risco em algumas frentes de crédito, o banco também busca reequilibrar o portfólio por outro caminho: aumentando a exposição a linhas consideradas mais previsíveis e rentáveis.
O principal destaque é o crédito consignado privado. Em menos de um ano, o Banco do Brasil já desembolsou cerca de R$ 18 bilhões nessa modalidade, alcançando 1,2 milhão de clientes.
O objetivo do BB é atingir cerca de 20% de participação de mercado, patamar similar ao que já detém no consignado do setor público.
A estratégia é ganhar tração em produtos com garantias mais sólidas e spreads mais atrativos, compensando a menor performance de carteiras mais sensíveis ao ciclo econômico.
“A gente segue tracionado na pessoa física… para equilibrar o portfólio do banco, principalmente em momentos em que outras carteiras, como a do agro, não performam tão bem”, afirmou Prince.
