A temporada de balanços dos bancos no primeiro trimestre de 2026 deve trazer uma continuação das tendências vistas nos últimos períodos, embora incertezas comecem a se acumular. Há dúvidas sobre até onde vai um movimento de piora na inadimplência que se consolidou nos últimos meses e sobre os impactos macroeconômicos da guerra no Irã – e os casos de grandes empresas em dificuldades também podem elevar as provisões dos bancos. Além disso, o cenário eleitoral deve começar a ganhar mais peso e as divulgações ocorrem no momento em que o governo finaliza um novo programa de renegociação de dívidas.
Itaú Unibanco, Bradesco, Banco do Brasil e Santander devem ter um lucro consolidado de R$ 26,5 bilhões no período de janeiro a março. Em se concretizando esse número, seria uma queda de 7,6% em relação ao quarto trimestre e de 6,2% na comparação com o primeiro trimestre de 2024. Como tem acontecido nos últimos trimestres, o BB puxa a média para baixo, pressionado pelo agronegócio. Sem ele, o lucro consolidado seria de R$ 23,0 bilhões, com altas de 0,3% e de 10,3%, na mesma comparação.
Enquanto Itaú pode seguir renovando recordes, Bradesco e Santander mantêm uma toada de recuperação. A filial do banco espanhol abre a temporada com a divulgação dos números amanhã, antes da abertura dos mercados, e anunciou recentemente que Gilson Finkelsztain deve assumir como novo CEO em julho, em substituição a Mario Leão.
“Qualidade de ativos será o grande tema do trimestre, que tem sazonalidade negativa”, dizem analistas do J.P. Morgan
Para Daniel Utsch, gestor da Nero Capital, os números que serão acompanhados com mais atenção serão os de inadimplência e provisões para devedores duvidosos (PDD). “Temos um ciclo de inadimplência que deve pesar, tanto no agro, que afeta mais o BB, quanto entre grandes empresas. Tivemos várias recuperações judiciais e outros nomes grandes com dificuldades, então precisamos ver como esses casos devem transitar pelos balanços dos bancos.” Um dos casos com maior potencial de impacto é Raízen, já que até poucos meses a empresa tinha ratings relativamente bons e, assim, é bem provável que o nível de provisionamento dos bancos fosse pequeno.
Os analistas do J.P. Morgan também apontam que a qualidade dos ativos será o grande tema do trimestre. Eles lembram que há uma sazonalidade negativa no primeiro trimestre, mas os investidores vão tentar entender se isso é só um “soluço” ou uma tendência mais firme de deterioração. “De acordo com nossas discussões, a preocupação dos investidores é generalizada em relação a diferentes produtos: cartões de crédito, empréstimos pessoais, PMEs, corporate, linhas rurais, entre outros. Curiosamente, ainda não observamos um quadro claro de deterioração nos dados do Banco Central nos últimos meses.” O Citi vai na mesma linha: “Esperamos que os bancos brasileiros apresentem um trimestre menos favorável, impulsionado por uma combinação de fatores sazonais adversos – que impactam a margem financeira (NII) com clientes, as provisões e os empréstimos inadimplentes em estágio inicial – e por maiores provisões, refletindo casos específicos de grandes empresas”.
No agro, como muitos créditos da safra 2024/2025 ainda vencem no primeiro semestre, a perspectiva é que a qualidades dos ativos siga bastante pressionada. Na semana passada, durante encontro anual com investidores, o BB – que tem maior exposição ao setor – deixou claro que a trajetória de recuperação deve ter altos e baixos. “Falando de forma muito transparente, acho que vocês perceberam durante todas as falas [do evento] que 2026 para nós será um ano de reestruturação, de retomada de crescimento. Não vai ser um ano fácil”, admitiu a presidente Tarciana Medeiros.
O BB anunciou que renegociou R$ 36,5 bilhões no âmbito da medida provisória (MP) 1.314, que ajudou produtores afetados por eventos climáticos. Desse total, apenas 2,5% vencem em 2026. O problema, segundo analistas, está na carteira prorrogada do agro, de R$ 64,5 bilhões, sendo que 36% vencem neste ano. Para os analistas do Bank of America (BofA), os resultados do BB podem ficar abaixo das previsões, “principalmente devido a encargos com provisões piores do que o esperado, uma vez que os dados do BC mostram uma deterioração contínua dos empréstimos inadimplentes no agro”.
O Santander também tem uma exposição relativamente substancial ao agro e está em meio a uma transição de comando. Para os analistas da XP, o banco deve entregar um trimestre um pouco mais fraco do que o anterior, reflexo da postura mais seletiva no crédito, “principalmente em cartões de crédito de baixa renda, agronegócio e PMEs”. Para o Goldman Sachs, há risco de surpresas negativas em PDD, considerando a exposição do banco a casos no atacado. “Projetamos uma expansão sequencial na margem financeira, apesar da pressão contínua na margem com mercado, que deve melhorar gradualmente ao longo do ano.”
No caso do Bradesco, a expectativa de analistas é de crescimento no lucro no comparativo trimestral e anual. Na avaliação do Safra, os segmentos de PME e pessoa física devem continuar sendo os principais impulsionadores do crescimento da carteira de crédito. A margem ajustada ao risco deve permanecer estável ante o trimestre anterior. “Quanto ao segmento de seguros, esperamos contribuições quase estáveis tanto da receita operacional quanto da receita financeira, resultando em um crescimento de 7% em relação ao ano anterior.”
O Itaú, por sua vez, poderia renovar o recorde de lucro mesmo com a sazonalidade negativa do primeiro trimestre e com a antecipação de dividendos feita pelo banco. O consenso dos analistas é de leve baixa trimestral de 0,2%. “Embora tenhamos revisado ligeiramente para baixo nossas estimativas para o primeiro trimestre do Itaú, isso se deve principalmente à antecipação de pagamento de dividendos, juntamente com a sazonalidade, e não a qualquer deterioração nas tendências subjacentes, mantendo nossa visão construtiva inalterada. […] Em nossas conversas com investidores, o Itaú continua sendo uma posição central em diversos portfólios, tanto entre investidores locais quanto estrangeiros”, dizem os analistas do Santander CIB.
Utsch, da Nero, lembra que as ações dos bancos brasileiros subiram muito nos últimos meses e que, se houver alguma decepção com os resultados, isso pode gerar uma correção nos papéis. “Tivemos um rali da bolsa muito pautado pelo investimento estrangeiro, e não exatamente pelos fundamentos das companhias. Então a régua, a base de comparação de preço, subiu muito.” Ele aponta que o Bradesco talvez seja ainda mais suscetível a uma eventual correção se os resultados não animarem, porque o papel chegou próximo dos picos vistos em 2019 e o banco ainda não entregou toda a recuperação que se espera.
O gestor lembra que o cenário macro também traz incertezas, com os impactos da guerra do Irã nos preços do petróleo e, consequentemente, na inflação e nas decisões de política monetária do BC. Para ele, a eleição presidencial ainda não é uma tema que tem feito muito preços nas ações de bancos. Utsch também não acredita que o novo programa de renegociação de dívidas que deve ser lançado pelo governo nos próximos dias terá um efeito nos resultados das instituições financeiras. “Se tiver algum impacto, vai ser muito marginal, não muda o ponteiro. Além disso, o programa gera alguma preocupação com a questão fiscal [se o governo fizer um aporte grande no Fundo de Garantia de Operações, o FGO], então isso pode afetar o humor do investidor, e nem está claro se o efeito líquido de tudo isso seria positivo para as ações dos bancos.”
Além dos quatro grandes bancos incumbentes, o Nubank deve ter lucro de US$ 910 milhões (cerca de R$ 4,5 bilhões) no primeiro trimestre. O Bradesco BBI diz que a qualidade dos ativos deve seguir o padrão sazonal tradicional e que o índice de eficiência tende a ficar basicamente estável. Assim, coloca o Nubank entre seus nomes preferidos para a temporada do primeiro trimestre. Na visão dos analistas do BofA, “a expansão do crédito deverá permanecer robusta, impulsionada principalmente pelo uso dos recentes aumentos nos limites de cartões de crédito no Brasil e pela aceleração no México, enquanto o crédito garantido deverá ser limitado por recentes mudanças regulatórias que afetaram a antecipação do FGTS”.
