O Banco do Brasil sustenta que o agronegócio já dá sinais de recuperação, mas dados de mercado e relatos de produtores indicam um cenário mais delicado. A inadimplência no crédito rural segue em alta, o crédito ficou mais restritivo e a carteira prorrogada do banco saltou para níveis recordes, criando riscos relevantes para resultados e dividendos em 2026.
Inadimplência no agro sobe e pressiona o crédito
O agronegócio brasileiro enfrenta um ciclo adverso marcado por queda nos preços das commodities agrícolas, aumento dos custos de produção e margens comprimidas. Nesse ambiente, a inadimplência rural avançou e forçou os bancos a endurecer as exigências de garantias.
No caso do Banco do Brasil, líder absoluto no crédito ao agro, a consequência direta é a redução da oferta de novos financiamentos, justamente em um momento em que o produtor depende de capital para plantar a próxima safra.
Carteira prorrogada dispara e vira ponto crítico
Um dos principais sinais de alerta está na chamada carteira prorrogada — créditos que ultrapassaram 90 dias sem pagamento e foram renegociados. Esse volume saiu de cerca de R$ 10 bilhões para mais de R$ 50 bilhões, transformando-se em um problema estrutural.
Embora essa carteira não apareça imediatamente como perda no balanço, ela representa risco real: em algum momento, o dinheiro precisa retornar ao banco. Com produtores descapitalizados e sem acesso a novo crédito, a capacidade de pagamento futuro fica comprometida.
Safra recorde não garante recuperação
O argumento de que safras recordes resolveriam o problema ignora um ponto central: volume sem preço não gera lucro.
Mesmo com produção elevada, a manutenção dos preços em patamares baixos impede que o produtor gere caixa suficiente para honrar dívidas antigas e novas. Esse descompasso mantém a pressão sobre o sistema financeiro rural e reduz a eficácia de planos de estímulo ao crédito.
Recuperações judiciais aumentam no campo
Diante da falta de perspectiva, cresce o número de produtores que recorrem à recuperação judicial. Ao contrário da narrativa de oportunismo, esse movimento reflete incapacidade real de pagamento.
O efeito colateral é grave: produtores em RJ ficam praticamente excluídos do sistema de crédito, reforçando um ciclo de queda — menos financiamento, menor produção rentável e menor chance de recuperação financeira.
Impacto direto nos resultados e dividendos
Com maior risco de crédito, aumento das provisões e crescimento limitado da carteira agro, o impacto tende a aparecer nos resultados do banco.
Para 2026, o cenário aponta lucro pressionado e dividendos mais fracos, contrariando expectativas de investidores que apostam em forte geração de caixa no curto prazo. O desempenho de bancos costuma cair rapidamente em ciclos de crédito adversos e levar anos para se recuperar.
Eleições podem mexer com a ação, mas não com os fundamentos
O debate eleitoral de 2026 adiciona volatilidade ao papel. Como estatal, o Banco do Brasil pode reagir positivamente a mudanças de humor político, independentemente dos fundamentos.
No entanto, movimentos de preço motivados por eleição tendem a ser desconectados da realidade operacional. Sem melhora efetiva nos preços das commodities agrícolas, a recuperação estrutural do banco permanece limitada.
Apesar do discurso otimista, os dados indicam que o agro ainda atravessa um ciclo difícil. Inadimplência elevada, carteira prorrogada bilionária e crédito restrito tornam o cenário do Banco do Brasil mais desafiador para 2026.
A recuperação sustentável depende menos de discursos e mais de uma virada no ciclo de preços das commodities — condição que, até agora, ainda não se confirmou.
