A presidente do Banco do Brasil (BB), Tarciana Medeiros, afirmou que o pedido feito pela instituição financeira para adiar pagamentos ao Tesouro Nacional faz parte de um “plano prudencial” de gestão do capital.
“Temos [capital] bem acima do que Basileia coloca como nível de prudência e a gente não quer tocar nessa linha”, afirmou a executiva durante o programa Roda Viva, da TV Cultura, que foi ao ar na noite de ontem e contou com a participação do Valor.
Medeiros negou que a medida tenha como objetivo aumentar os índices de capital do BB neste momento.
Conforme o Valor revelou, o Banco do Brasil pediu ao Tesouro Nacional o diferimento, até 2029, do pagamento de R$ 1,8 bilhão em Instrumento Híbrido de Capital e Dívida (IHCD). O instrumento foi usado nos governos Lula 2 e Dilma para fortalecer o capital de bancos públicos, mas há um cronograma de devoluções à União.
Medeiros lembrou que o BB constituiu cerca de R$ 60 bilhões em provisões no ano passado, quando foi afetado pela inadimplência recorde na carteira de crédito ao agronegócio. Neste contexto, disse, o banco identificou que o IHCD era um dos fatores que penalizariam o capital mais adiante.
“A gente precisa cuidar desse capital futuro. Nessa previsão de capital futuro, um dos indicadores que trariam algum decréscimo era o IHCD”, afirmou. “Não quer dizer que a gente necessite e que seja indispensável para a sobrevivência e o capital do banco esse diferimento.”
A executiva ressaltou que o Banco do Brasil era o único que vinha pagando integralmente o IHCD, enquanto outras instituições públicas já renegociaram com o Tesouro.
O BB encerrou 2025 com índice de Basileia de 15,13%. O capital de nível 1, de melhor qualidade, fechou o ano em 14,26%.
Recuperação
Depois de amargar uma queda de 45,4% no lucro líquido em 2025, o Banco do Brasil deve entrar em trajetória de recuperação neste ano apostando no aumento da rentabilidade da carteira de crédito para pessoa física, enquanto os segmentos de pessoa jurídica e agro devem se manter estáveis nesse quesito.
De acordo com Medeiros, essa combinação vai permitir a melhora do resultado, conforme as projeções divulgadas pelo banco. “Parece um crescimento pequeno, mas é de 20% em cima de R$ 20,7 bilhões”, disse.
A executiva relativizou a queda do lucro no ano passado, afirmando que o tombo se deu em relação ao maior resultado da história do BB, alcançado em 2024. Medeiros acrescentou que, se somados os lucros de 2023, quando chegou à presidência do banco, até este ano (conforme o previsto no “guidance”), a instituição entregará um ganho de R$ 118 bilhões. “É a soma dos sete anos anteriores a 2023.”
Para Medeiros, o banco tem condições de continuar entregando um aumento da margem financeira e o foco neste ano é ter uma participação maior de pessoas físicas no mix de crédito. Ao mesmo tempo, o objetivo é controlar a carteira de agro, com alguma possibilidade de inflexão a partir do segundo semestre.
O BB fechou dezembro com inadimplência recorde de 6,09% na carteira de crédito ao agronegócio. Medeiros negou que haja uma crise geral no setor. “Não há uma crise no agro brasileiro. Prova disso é a safra recorde”, afirmou.
Segundo a executiva, houve uma “conjunção de fatores históricos”, com impacto para “uma parcela de produtores, para algumas safras muito específicas e em regiões também específicas” que gerou dificuldades no pagamento dos créditos.
Caso Master
A presidente do BB defendeu que, após as implicações da quebra do Banco Master, haja uma reavaliação de normativos e das regras do Fundo Garantidor de Créditos (FGC), sem especificar medidas.
“No instante em que em se tem situações que são anômalas, a necessidade de evolução da governança desse processo se mostra urgente”, disse.
Na avaliação da executiva, não é necessariamente um problema haver um banco — como fazia o Master — que emita CDBs a 140% do CDI, desde que esse custo de captação seja compatível com seu modelo de negócios. “Mas é preciso prestar atenção quando não condiz.”
Segundo ela, não existe sistema infalível, mas desvios devem ser combatidos.
A executiva lembrou ainda que a conta da recomposição do caixa do FGC após os pagamentos aos depositantes do Master e outras instituições relacionadas está recaindo principalmente sobre BB, Caixa, Itaú Unibanco, Bradesco e Santander. O Banco Central aprovou a liberação de compulsórios para mitigar o impacto.
A presidente do BB disse não estar envolvida em conversas para uma eventual ajuda dos bancos na capitalização do Banco de Brasília (BRB). A executiva também afirmou não ter tratado do assunto com a Fazenda.
“Não fomos chamados ou consultados para discutir um possível aporte ou crédito para aporte ao BRB”, disse. “Não conversei com Fazenda sobre isso. Mas te diria que, neste momento, estou muito preocupada com meus ativos do BB, cuidando deles direitinho para que a gente possa entregar o ‘guidance’ de 2026.”
