O mercado financeiro reagiu de forma cautelosa ao mais recente balanço trimestral (2T26) do Banco do Brasil (BBAS3). Embora a instituição tenha reportado um lucro de R$ 3,9 bilhões, vindo acima das estimativas do mercado, a leitura minuciosa das linhas de crédito acendeu um alerta vermelho em relação à qualidade dos ativos e à sustentabilidade do guidance do banco público.
Para Charles Mendlowicz, economista, sócio da consultoria de wealth management Ticker Wealth e criador do canal Economista Sincero, a leitura dos números precisa ir além do resultado final.
“Quando o lucro vem acima do esperado, passa uma sensação que pode não condizer com a realidade. Ao analisar os dados, percebemos que um problema muito grave estourou no Banco do Brasil e vai aparecer em outras instituições: a questão da inadimplência”, afirma o economista.
Inadimplência escancara aperto do consumidor
A disparada nos calotes atingiu de forma drástica a carteira de pessoa física, com destaque para a modalidade de cartão de crédito, na qual a inadimplência saltou de 6,53% em junho de 2025 para 14,58% em junho de 2026. Para Mendlowicz, esse patamar reflete o real impacto do custo de vida no bolso da população.
“As pessoas estão sem dinheiro. Quando o orçamento aperta, a pessoa escolhe pagar a luz, a água ou a parcela do carro, e deixa para pagar o cartão de crédito depois. O salário do brasileiro subiu marginalmente, mas o condomínio, a escola dos filhos e o plano de saúde dobraram ou triplicaram nos últimos anos. Esse movimento reflete na inadimplência no cartão”, explica Mendlowicz.
Além da pessoa física, o agronegócio, considerado um tradicional motor do banco estatal, passou a dar sinais de estresse. A inadimplência acima de 90 dias encerrou junho em 6,27%, pressionada por eventos climáticos como o El Niño.
Diagnóstico macro e posição do investidor
Mendlowicz reforça que a instituição permanece sólida, descartando riscos sistêmicos, mas pondera que a deterioração do crédito ultrapassa as fronteiras do Banco do Brasil.
“Eu não estou tão preocupado com o Banco do Brasil como estou preocupado com o Brasil. O estresse estourou primeiro no banco público, mas a inadimplência é generalizada. Se você tem um armário com 15 gavetas e abre uma que tem uma aranha, a chance de ter aranhas nas outras gavetas é enorme”, adverte o economista.
De olho nas movimentações do setor bancário frente a uma futura rotação de carteiras na bolsa de valores, Mendlowicz orienta que os investidores tenham uma postura analítica e seletiva. “O momento requer paciência, é delicado. O investidor precisa observar como cada instituição financeira vai atravessar esse ciclo de crédito antes de tomar qualquer decisão”, conclui Charles Mendlowicz.
