A Previ (Caixa de Previdência dos Funcionários do Banco do Brasil), maior acionista individual da Vale, quer que a mineradora troque o presidente do conselho da companhia. Alegando necessidade de melhorar a governança corporativa da Vale, a Previ está pedindo a substituição de Daniel André Stieler, indicado pela própria empresa de previdência em abril de 2023, por Manuel Lino Silva de Sousa Oliveira.
O que aconteceu
Vale chamou acionistas para decidir sobre pedido de acionista para mudar presidente do conselho da companhia. A pedido da Previ, foi convocada para 22 de julho uma assembleia para votar a substituição do atual presidente do conselho da mineradora, cujo mandato só terminaria em 2027.
A Previ pediu, em carta enviada à direção da mineradora, em 11 de junho, a destituição do atual presidente. No documento, a gestora da previdência dos funcionários do Banco do Brasil declara apoio à indicação de Oliveira para o cargo “por entender que sua eventual condução contribuirá positivamente para o fortalecimento das práticas de governança, a melhoria da gestão estratégica, e o alinhamento com os interesses dos acionistas e stakeholders”.
Disputa
Daniel André Stieler foi presidente da Previ de 2021 a fevereiro de 2023. Começou a fazer parte do conselho da Vale em 2021 e foi indicado pela empresa de previdência para liderar o colegiado na mineradora mesmo depois de deixar a presidência da Previ. No entanto, perdeu apoio na Vale depois que seu sucessor na Previ, João Luiz Fukunaga, deixou o cargo no ano passado em meio a questionamentos do TCU (Tribunal de Contas da União). Stieler é contador pela UFSM (Universidade Federal de Santa Maria) e pós-graduado em administração financeira pela FGV (Fundação Getulio Vargas).
O novo indicado é membro independente do conselho de administração da Vale desde 2021. Também contador, o português Manuel Lino Silva de Sousa, conhecido como Ollie, é formado pela Universidade de Natal, de Durban, na África do Sul. Tem quase 50 anos de experiência em finanças corporativas e estratégia, principalmente no setor de mineração, com passagens por grupos como os britânicos Anglo American e De Beers.
Conselho da Vale se coloca contra a Previ. Em reunião na sexta-feira (19 de junho), os conselheiros da mineradora decidiram recomendar aos acionistas, na assembleia de 22 de julho, que Stieler siga no cargo. E, caso ele seja removido pelos acionistas na votação, que Marcelo Gasparino, o atual vice-presidente do colegiado, seja nomeado o novo presidente.
Se o presidente do conselho da Vale for afastado na assembleia de 22 de julho, uma vaga será aberta no colegiado, que tem 13 membros. A Previ já indicou para essa cadeira o nome de José Maurício Pereira Coelho, ex-presidente da Previ e ex-presidente do conselho da Vale (2019-2021). Ele disputaria a vaga com Ieda Gomes Yell, indicada pelos demais membros do colegiado.
Para especialistas do mercado financeiro, ainda não está clara a motivação da Previ para pedir a troca. Tampouco o conselho de administração conseguiu explicar a razão de se opor à substituição.
“Essa discordância coloca a companhia diante de um impasse de governança que o mercado tende a ler como ruído negativo no curto prazo. Para o [acionista] minoritário, o sinal é ambíguo. Maior pressão institucional por governança é, em tese, positiva. Mas instabilidade no conselho num momento de transição estratégica gera incerteza sobre os rumos da empresa — e de incerteza o mercado não gosta”, diz João Luís Debom, diretor do departamento de investimentos private da gestora Supernova.
Peso no Ibovespa
A Vale é a empresa de maior peso no Ibovespa, o principal índice acionário da Bolsa brasileira, a B3. As ações da mineradora respondem por 12,2% da composição do índice. A segunda colocada é a Petrobras, com 11,5% — somando as ações ON e PN.
No ano, a Vale acumula valorização de 12,6% na Bolsa. A ação da mineradora saiu de R$ 71,96 em janeiro para R$ 80,75 no fechamento da última sexta. Sua cotação máxima neste ano foi de R$ 89,97, em 25 de fevereiro, e a mínima, de R$ 72,38, no primeiro pregão do ano.
O lucro da Vale cresceu 36% no 1º trimestre deste ano em comparação com o mesmo período de 2025. Os ganhos, de US$ 1,9 bilhão, foram impulsionados pelo aumento de 21% do Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização), de US$ 3,895 bilhões.
A Previ detém 7,02% do capital total da Vale. Com esse percentual, a empresa de previdência dos funcionários do Banco do Brasil supera as participações individuais da sócia japonesa Mitsui (6,45%) e dos fundos de investimentos norte-americanos BlackRock (6,71%) e Capital World Investors (5,13%).
“Quando se tenta trocar o presidente do conselho de uma corporação no meio do mandato sem uma tese pública e robusta, o mercado preenche a lacuna com a hipótese que mais o assusta, a de que a motivação seja menos sobre criação de valor e mais sobre influência. A mineradora tem o seu valor, em parte, apoiado no fato de ser uma corporação, sem dono, cujo conselho deve responder, em tese, a todos os acionistas e não a um projeto específico. Esse tipo de episódio coloca essa independência em dúvida, mesmo que a troca, no fim, se mostre técnica e bem-intencionada”, argumenta Ricardo Trevisan, presidente da gestora de investimentos Gravus Capital.
Procuradas pelo UOL, a Previ e a Vale não comentaram o caso. A Previ disse que “no momento, não irá comentar nem fornecer informações sobre o assunto”.
