O UBS BB mapeou 120 empresas com potencial para abrir o capital nos próximos três anos e vê espaço para uma aceleração de fusões e aquisições no Brasil, impulsionados pela perspectiva de queda dos juros e valorização da bolsa, uma expectativa do mercado financeiro em um cenário de troca de governo do país. Em apresentação interna preparada para a liderança global de banco de investimento, à qual o Valor teve acesso, a instituição estima que o Ibovespa possa alcançar 300 mil pontos, uma alta potencial de 43,5% em relação aos 209 mil pontos registrados no último dia 9 de outubro.
O documento foi elaborado após a forte reação dos mercados ao primeiro turno das eleições presidenciais no último dia 4, quando Flávio Bolsonaro (PL) obteve 47,03% dos votos válidos, ante 45,16% do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). O resultado alimentou entre investidores a expectativa de mudança de governo. A disputa, porém, permanece apertada. Pesquisa Quaest divulgada na quarta-feira mostrou Flávio com 46% das intenções de voto, ante 44% de Lula, em situação de empate técnico, considerada a margem de erro de dois pontos percentuais.
No primeiro pregão após a votação, o Ibovespa disparou 7,7%. Até 9 de outubro, a valorização acumulada desde o primeiro turno chegou a 8,8%, levando o índice a 209.067 pontos. Ontem, o Ibovespa encerrou o pregão com baixa de 1,06%, aos 204.324 pontos.
A reação dos ativos também foi acompanhada por uma queda expressiva dos juros futuros e pela entrada de capital estrangeiro. Na primeira semana após a votação, a taxa do contrato com vencimento em janeiro de 2031 recuou de 13,99% para 12,23%, uma redução de 1,76 ponto percentual.
O UBS BB recorre, nesse documento, a experiências recentes de outros países latino-americanos para avaliar se a valorização dos ativos brasileiros pode se sustentar após a eleição. Segundo o levantamento, as bolsas do Chile e da Colômbia também reagiram positivamente ao primeiro turno de disputas presidenciais que terminaram com vitórias de candidatos de direita. Nos dois mercados, os ganhos acumulados desde a primeira votação chegaram a 14,4% e 12,3%, respectivamente, até 9 de outubro, mesmo após episódios de realização de lucros e turbulências externas.
No Chile, a bolsa subiu 3,1% no primeiro pregão após o primeiro turno e acumulou valorização de 14,4% desde então. Na Colômbia, o avanço inicial foi de 5%, com ganho acumulado de 12,3%. Para o banco, os exemplos mostram que a reprecificação dos ativos pode começar antes da definição eleitoral e se prolongar após o segundo turno, embora não haja garantia de que o Brasil repetirá esse comportamento.
Para o UBS BB, a melhora das condições financeiras abriu uma oportunidade para que empresas e acionistas retomem operações que estavam paralisadas. As primeiras operações com potencial de ocorrer são as ofertas subsequentes de ações (“follow-ons”). O banco identifica oportunidades principalmente entre companhias de energia e infraestrutura, além de grupos que precisam reduzir o endividamento. Com as ações mais valorizadas, essas empresas podem levantar recursos com menor diluição para os acionistas.
Para banco, melhora das condições financeiras abre espaço para retomada de operações que estavam paralisadas
Ainda conforme o documento, o ambiente também favorece fundos de “private equity” (fundos que investem em empresas) interessados em vender participações. Segundo o levantamento, esses investidores venderam 20 empresas no primeiro semestre deste ano, número equivalente ao registrado em todo o ano de 2025, e adquiriram outras 31. Como a janela de aberturas de capital ainda permanece difícil para empresas de médio porte, a instituição recomenda avaliar simultaneamente a venda dos ativos a compradores estratégicos e uma eventual oferta de ações, estratégia conhecida como “dual track”.
Embora tenha mapeado 120 potenciais candidatas a ofertas públicas iniciais de ações (IPOs, na sigla em inglês), o UBS BB não detalha quantas já iniciaram preparativos formais. A avaliação é que a retomada será gradual, com as companhias de maior porte e liquidez saindo na frente. No início de outubro, o Ibovespa negociava a 8,9 vezes o lucro projetado das empresas, múltiplo inferior ao observado em outros mercados emergentes, como México e China, aponta.
No mercado de fusões e aquisições (M&As, na sigla em inglês), o documento aponta uma expectativa de crescimento superior a 30% ao ano nos próximos quatro anos. A recuperação, porém, deve ocorrer em velocidades diferentes. Grandes transações, especialmente aquelas envolvendo compradores estrangeiros, já apresentam sinais de retomada, enquanto as operações menores continuam pressionadas pelo custo elevado de financiamento.
No primeiro semestre, as fusões e aquisições envolvendo empresas brasileiras movimentaram US$ 30,6 bilhões, alta de cerca de 17% em relação ao mesmo período de 2025. O número de negócios, porém, caiu 15%, evidenciando a concentração da atividade em transações de maior porte. Foram anunciadas 17 operações superiores a US$ 500 milhões.
O capital estrangeiro respondeu por 52% do valor negociado no período, equivalente a US$ 16,1 bilhões, com destaque para mineração, petróleo e gás, energia e infraestrutura digital. O UBS BB enxerga oportunidades com investidores da América do Norte, Europa, China e países do Golfo, com o objetivo de preparar novas aquisições em 2027.
Já a consolidação entre companhias brasileiras tende a exigir mais tempo. Das 44 aquisições superiores a US$ 100 milhões registradas no primeiro semestre, apenas quatro utilizaram ações como parte do pagamento. Uma análise histórica feita pelo banco indica que a quantidade de fusões e aquisições costuma reagir à queda dos juros com uma defasagem de quatro a sete trimestres.
