Muito além das eleições: o que esperar do Brasil para os próximos quatro anos

Publicado em: 03/10/2022

Ivan Sant’Anna*

Receio sinceramente que quem lê o título desta crônica pense que fiquei maluco. Se escrever sobre as perspectivas para os próximos quatro meses, e até sobre as próximas quatro semanas, já é uma tarefa difícil no Brasil, ainda mais numa época conturbada como esta, imagine, caro leitor, fazê-lo para os próximos quatro anos.

Mas foi o tema que Seu Dinheiro me encomendou e não sou muito de fugir de desafios. Como se os complicadores acima já não fossem suficientes, este texto, que comecei a escrever na segunda-feira, 26, está sendo publicado no domingo, dia das eleições gerais, um dos momentos mais decisivos da história contemporânea do país.

Ou seja, quem estiver lendo provavelmente ainda não saberá se haverá ou não segundo turno para presidente da República, o que só começará a ser definido lá pelas 18 horas, quando serão divulgadas as pesquisas de boca de urna, ou, se estas estiverem empatadas dentro da margem de erro, bem tarde noite adentro quando o STE divulgar o resultado final.

Os dois cenários possíveis das eleições

Algumas coisas já podem ser descartadas, sem medo de errar:

Ciro Gomes e Simone Tebet, por melhor que tenham se saído no debate da TV Globo, não têm a menor chance de se eleger.

Chance ainda menor tem Jair Bolsonaro de vencer no primeiro turno, embora volta e meia ele diga que terá 60% dos votos no dia 2 de outubro, desde que “a apuração seja honesta” (palavras do candidato).

A dúvida, portanto, se restringe a duas hipóteses:

Lula vence no primeiro turno.
O capitão-presidente vai disputar com o petista a segunda rodada, em 30 de outubro.

Vejamos primeiro o que se pode esperar de um governo Luiz Inácio no quatriênio 2023/2026:
Aspectos positivos:

– Lula tem boa aceitação nos países chamados progressistas do primeiro mundo (e aí estou incluindo os Estados Unidos democratas de Joe Biden), pois já circulou entre estadistas importantes durante seus oito anos de mandato (2003/2010), ocasião em que quase não havia governos de extrema direita (Donald Trump deu o pontapé inicial nas eleições de 2016). Nem mesmo Vladimir Putin era classificado como tal. No máximo, “o homem forte da Rússia”.

– Se é fato concreto, ou não, o certo é que a pessoa de Lula é ligada, pela opinião pública internacional, à proteção do meio ambiente, talvez como contraponto às posições de Bolsonaro nessa área.

– O mesmo se refere a causas indígenas e diversidade religiosa, racial, orientação sexual e direitos humanos, temas considerados essenciais por grande parte das democracias desenvolvidas. Não todas, é bom que se esclareça, como prova a eleição da extremista de direita Giorgia Meloni na Itália no domingo passado.
Aspectos negativos:

– Lula insiste em manter relações amistosas com ditaduras de esquerda da América Latina, como são os casos de Cuba, Venezuela e Nicarágua.

– Numa época em que a situação fiscal brasileira é péssima, o candidato petista não só diz que em seu governo não haverá privatizações (cita nominalmente os Correios, a Petrobras e o Banco do Brasil) como andou falando que irá reverter a da Eletrobras.

– Lula promete revogar a reforma trabalhista, avanço alcançado no governo Michel Temer.

– Em termos de política externa, diz que se voltará para os países da América Latina e da África. Com todo o respeito, isso me faz lembrar de um amigo, recém falecido, que costumava dizer que “ser sócio de pobre é pedir esmolas pra dois”.

E se houver segundo turno nas eleições?

Tudo bem, sejamos objetivos:

Se Lula não vencer no primeiro turno, é quase certo que o faça no segundo.

Quase!

Nos 28 dias entre uma rodada e outra, muitas coisas poderão acontecer.

Uma semana antes do primeiro turno das eleições de 2018 para governador do Rio de Janeiro, pouquíssima gente tinha ouvido falar num certo Wilson Witzel, homem que já fora oficial dos fuzileiros navais e juiz federal, tendo desistido das duas carreiras, que propiciam prestígio e estabilidade, por iniciativa própria.

Eis que num único debate Witzel demoliu os favoritos Eduardo Paes e Romário.

Na campanha do segundo turno, Wilson Witzel, agora bem conhecido dos eleitores, veio com uma história de “mirar na cabecinha do bandido e atirar”.

Por mais mal gosto semântico que a frase contenha, ela caiu no agrado do eleitor, farto de ter amigos e parentes mortos pelas quadrilhas que fazem dos morros e favelas cariocas seus feudos independentes, onde a polícia só entra em grupos bem armados e protegidos por blindados.

O mandato de Witzel durou pouco. Ele foi cassado pela Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro. Mas isso já é outra história.

Nas eleições municipais de São Paulo em 1985, Fernando Henrique Cardoso era a barbada das barbadas. Os eleitores ainda não perdoavam seu adversário, Jânio Quadros, que renunciara — sem que houvesse uma razão plausível para isso — à presidência da República em 1961, com apenas sete meses de governo no Planalto.

Mais tarde, em 2014, num jantar com empresários, FHC, ao dizer que “é possível perder uma eleição ganha”, explicou o que aconteceu em 1985.

Além de se declarar ateu, e dizer que já experimentara maconha, aceitou se deixar fotografar na cadeira de prefeito “antes” das eleições.

O ateísmo e a maconha foram um prato feito para Jânio Quadros.

Quanto a sentar na cadeira de prefeito, o fotógrafo prometera a FHC que só publicaria a foto após a confirmação da vitória (praticamente certa, como eu disse acima) do candidato. E não cumpriu a promessa.
O Brasil de Bolsonaro 2

Pois bem, como Lula é grande favorito, mas ainda não ganhou nada, vamos imaginar mais quatro anos de governo Bolsonaro.

O que é que nós, cidadãos, podemos ganhar ou perder com isso.
Aspectos positivos:

– Os cofres do Tesouro precisam desesperadamente de reforço. Por isso, existe a possibilidade de privatização da Petrobras, do Banco do Brasil e dos Correios.

– Muito da gastança do governo neste ano de 2022 se deve à busca da reeleição. Se ela ocorrer, tudo indica que o Planalto entre num período de austeridade comandado pelo ministro da Economia, Paulo Guedes.
Aspectos negativos

– Se há uma coisa que caracteriza bem a personalidade e as atitudes do presidente Jair Bolsonaro, é a imprevisibilidade de suas decisões e declarações.

– Bolsonaro cria inimigos à toa e compra aliados. Só que amigos comprados rompem o laço tão logo o dinheiro pare de fluir.

– Não sei se isso é uma impressão falsa minha, mas a religiosidade do presidente soa muito falsa. Nada mais é do que uma troca de interesses.

Quem manda no Brasil

Um detalhe importante é que, qualquer que seja o presidente eleito, seja Lula ou Bolsonaro, quem vai mandar mesmo é o Centrão.

Não fosse esse bloco parlamentar, sem nenhum perfil ideológico, e que faz do Congresso Nacional um balcão de negócios, Lula e Bolsonaro poderiam ter sido “impichados”.

O primeiro, durante os episódios do Mensalão; o segundo durante sua atuação nos primeiros meses da Covid-19, quando se posicionou contra as vacinas e até debochou da pandemia que matou quase 700 mil brasileiros.

Nos próximos anos, continuaremos a ser governados pelo Congresso Nacional, que imporá seus desejos e seus interesses ao ocupante do Planalto.

Em seus dois mandatos, Lula primeiro tentou comprar o apoio dos parlamentares pagando-lhes uma mesada. Foi o chamado “mensalão”.

Revelado o escândalo, passou a permitir que os partidos políticos indicassem integrantes do governo e dirigentes das estatais, o que acabou gerando o “petrolão” — revelado pela Operação Lava Jato já na gestão de Dilma Rousseff.

Jair Bolsonaro demorou mas depois não deixou por menos. Só para ficar num exemplo, admitiu a excrescência chamada Orçamento Secreto, através da qual os contribuintes simplesmente não sabem para onde está indo parte de seu dinheiro.
As eleições e os mercadores do dinheiro

Concluindo: nos próximos quatro anos, o mercado financeiro, tal como vem acontecendo nos últimos meses, será mais influenciado pelo que acontece lá fora do que pelas obviedades que ocorrerão aqui.

As empresas brasileiras já estão acostumadas a lidar com esses tipos de terrenos minados, assim como o mercado de ações.

Para os candidatos, essa eleição é importantíssima. Mas não tanto para os mercadores do dinheiro.

Profissionais que já lidaram com hiperinflação, choques heterodoxos, tablitas, confiscos e outros obstáculos, pelo menos desta vez não enfrentarão novidades, como aconteceu no Plano Collor (março de 1990).

Nos próximos quatro anos, os brasileiros vão lidar com Lula ou Bolsonaro. Ambos são cartas marcadas, com a tipicidade de cada uma, mas que não trarão nenhuma surpresa.

Felizmente o Brasil tem um setor privado maduro, empresas grandes e executivos excepcionais que sabem lidar com todas as situações.

O país é também uma fonte praticamente inesgotável de produtos agrícolas e matérias-primas.

Enfim, vamos depender mais do comportamento desses insumos do que do homem que dará um passeio de Rolls-Royce no dia 1º de janeiro de 2023 no Eixo Monumental de Brasília.

*Atua no mercado financeiro desde 1958 e foi trader por 37 anos antes de se tornar autor de livros best-sellers como “Os Mercadores da Noite” e “1929”. Escreve as newsletters de investimentos “Warm Up Inversa” e “Os Mercadores da Noite”, da Inversa Publicações.

Fonte: Seu Dinheiro

Banco do Brasil é novamente usado para socorrer estados

Publicado em: 19/01/2017

O acordo do Rio com o governo federal vai contar com empréstimo do Banco do Brasil e aval do governo a outros financiamentos, de acordo com Jorge Picciani. O presidente da Assembleia do Rio contou os detalhes ao “Valor Econômico”. Ou seja, além da suspensão no pagamento da dívida com a União, o estado receberia dinheiro novo. Empréstimos de bancos públicos e o aval do governo para outras operações foram muito usados no governo Dilma e não resolveram o desequilíbrio dos estados. O pacote deve ser anunciado na segunda-feira, diz a matéria. Se o socorro for dado ao Rio, outros governadores também vão requerer.

O deputado disse que o BB vai liberar uma linha de R$ 4 bi para o Rio que terá o governo federal como avalista. Outros R$ 4,5 bi viriam de um empréstimo liderado pelo BB com garantia nos royalties do petróleo — no valor de R$ 3 bi — e de outra operação (R$ 1,5 bi) garantida por 20% do capital da Cedae.

É mais do mesmo. Nos anos do governo Dilma foram dados muitos avais e empréstimos do BB para socorrer os estados em dificuldade. Essas operações ajudaram a esconder o problema. A solução foi sendo adiada ao ponto em que não é mais possível esconder a situação.

Picciani acha que a Assembleia do Rio vai aprovar o pacote porque, caso contrário, as negociações retornariam à estaca zero. Os recursos seriam usados para normalizar os pagamentos a servidores. São despesas urgentes, de fato. O estado tem tratado de maneira desigual os funcionários; alguns recebem em parcelas, outros não. O tratamento injusto gera insatisfação.

Os outros detalhes do pacote, como a suspensão do pagamento das dívidas com a União por alguns anos, já eram conhecidos.

O Rio Grande do Sul avisou que quer o mesmo tratamento. O governo tem que se preparar para estender essas condições a outros estados. Este é o panorama. Minas Gerais também está em situação financeira crítica. Entrevistei o governador de São Paulo, que ainda não pediu ajuda, mas Geraldo Alckmin contou que o estado está no limite. A arrecadação caiu muito e o governo paulista paga grandes valores em juros da dívida à União. Essa suspensão do pagamento dos juros talvez tenha que ser estendida aos outros entes.

Será uma discussão complicada. Os governos que fizeram ajustes, com o sacrifício da população, não estão pedindo socorro e não terão vantagens. É como se a virtude não valesse a pena, me disse um governador. A conversa entre a federação será difícil.

Ouça o comentário feito na CBN.

Fonte >> O Globo

Fitch: bancos estaduais do País seguem sensíveis à piora no ambiente operacional

Publicado em: 12/01/2017

A agência de classificação de risco Fitch afirmou, em nota divulgada nesta quarta-feira, 11, que bancos estaduais do Brasil são “altamente sensíveis” à deterioração no ambiente operacional regional, o que pode ter implicações para o perfil de crédito. Segundo a agência, a informação consta em relatório que cobre Banco do Estado do Rio Grande do Sul S.A., Banco do Estado de Sergipe S.A., Banco do Estado do Espírito Santo S.A. e Banco de Brasília.

“Os bancos subnacionais mantiveram um apetite por risco em 2016, similar aos pares do setor privado. O crescimento desacelerou, como resultado”, afirma Jean Lopes, diretor da Fitch. Segundo ele, os empréstimos inadimplentes continuam a crescer ao longo de 2016, uma tendência que continuará em 2017 devido à recessão econômica, aos altos níveis de inflação e desemprego e ao desempenho fraco na maioria dos setores corporativos.

Uma forte presença regional e ofertas abrangentes de produtos ajudam esses bancos estaduais a competir com os bancos maiores, nacionais. Os bancos estaduais trabalham proximamente com funcionários públicos regionais e poderiam ser afetados pelas dificuldades sofridas pelas entidades controladoras no pagamento de passivos. A agência cita também que o risco continuado diante do atraso de salários em alguns Estados prejudica o portfólio desses bancos.

Justiça suspende decisão que proibia fim de 13 agências no MA

Publicado em: 20/12/2016

A Justiça do Maranhão suspendeu a decisão da Vara de Interesses Difusos e Coletivos de São Luís, que havia determinando que fossem mantidas em pleno funcionamento todas as agências do Banco do Brasil no Maranhão, abstendo-se o banco de reduzi-las a postos de atendimento.

No entendimento do desembargador, Jamil Gedeon, a instituição bancária não teve a oportunidade de se manifestar previamente no processo, conforme prevê o novo Código de Processo Civil (CPC), que, em seus artigos 9º e 10º, estabelece que não seja proferida decisão contra uma das partes sem que seja a mesma previamente ouvida.

Para o desembargador, as providências adotadas na decisão de primeira instância constituem uma intervenção direta do Poder Judiciário no domínio econômico da atividade empresarial e na liberdade de iniciativa própria, impedindo o  do Brasil de exercer livremente os seus atos de gestão, guiado pelas regras de mercado e sob a fiscalização dos órgãos de controle a que se submete. Avaliou também que a decisão ingressa no sigilo da atividade desenvolvida pela instituição financeira, visando a produção de um futuro pronunciamento judicial.

A decisão de primeira instância determinou, além da proibição do fechamento das agências, a apresentação de relatório evidenciando a motivação, os impactos econômicos e a adequação das mudanças ao plano de negócios do Banco do Brasil, bem como a estratégia operacional da instituição financeira, apresentação de quantitativos de funcionários dos atendimentos realizados em 2016, número de clientes das agências que serão reestruturadas, entre outras exigências, incluindo a inversão do ônus da prova.

No tocante à inversão do ônus da prova determinado na decisão do juiz de base, Jamil Gedeon ressaltou que ela só pode ser admitida nas relações de consumo quando demonstrada a verossimilhança das alegações do consumidor, a hipossuficiência do mesmo quanto ao grau de dificuldade em obter informações técnicas pertinentes à relação de consumo, o que, no seu entendimento, não seria o caso, uma vez que não se mostram verossímeis às alegações do Procon, que, embora atue em defesa dos direitos do consumidor, com estes não se confunde e não se qualifica como destinatário direto da medida.

Pela decisão da 3ª Câmara Cível, o Procon e o Banco do Brasil serão intimados através do Diário de Justiça Eletrônico para ciência do julgamento. Em caso de recurso, o prazo é de 15 dias a partir da sua publicação.

Fonte: http://g1.globo.com/ma/maranhao/noticia/2016/12/justica-suspende-decisao-que-proibia-fim-de-13-agencias-do-bb-no-ma.html